Há mais poesia no cu de Viegas do que no cu de Botto
A entrada fulgurante do cu na vida política portuguesa
valoriza simultaneamente o cu e a vida política portuguesa. Francisco
José Viegas, antigo secretário de Estado da Cultura, disse que, na
eventualidade de ser abordado por um desses novos fiscais das facturas,
lhe pediria "para ir tomar no cu". O cu entra na política por via da
cultura, um canal de prestígio cujo acesso costuma estar barrado ao cu, e
a política acolhe com agrado a sensualidade e a volúpia do cu, das
quais está sempre muito necessitada.
António Botto, outro escritor que produziu pensamento (e não só:
também produziu acção, e muita) sobre o cu, escreveu um poema célebre
que começa com o verso Nunca te foram ao cu. Porém, o que em Botto é
lamento nostálgico, em Viegas é esperança e projecto de futuro. Ambos os
poetas idealizam um cu, mas Botto lastima que o proprietário do cu que
contempla nunca nele tenha tomado, ao passo que Viegas oferece ao
titular do cu que imagina um incentivo a que lá tome.
É curioso constatar que há mais poesia no cu de Viegas do que no cu
de Botto. O cu em que Viegas manda tomar é um cu simbólico. Trata-se de
um cu que é metonímia de outro cu. Viegas não ignora que, acima do cu do
fiscal das facturas há outros cus, bastante mais poderosos - e, acima
desses, outros cus ainda. Essa hierarquia de cus culmina num cu-mor,
responsável último pela ideia da fiscalização de facturas. É esse o cu a
que Viegas deseja aplicar a receita que prescreveu. O antigo secretário
de Estado está, portanto, a mandar tomar no cu por interposto cu. É um
cu labiríntico, aquele que nos é apresentado neste jogo de espelhos de
cus.
Os cus distinguem-se ainda quanto ao seu estatuto. O cu a que Viegas
se refere é um cu público; Botto debruça-se sobre um cu privado.
Enquanto Botto deseja subordinar o cu ao seu prazer pessoal, Viegas
pretende colocar o cu do fiscal das facturas ao serviço da comunidade,
estabelecendo-o como sede apropriada para um castigo aplicado por um
país inteiro. Esta distinção é, juntamente com o que ficou dito atrás,
essencial. No entanto, passou ao lado de todos os nossos analistas
políticos, que têm sido desde sempre incapazes de levar a cabo uma
competente hermenêutica do cu. Lamento dizê-lo, mas a generalidade das
observações que li acerca deste assunto não valia um cu.